quarta-feira, junho 15, 2022

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (5)

 


Finalmente, Victor Oliveira fez algo que, apesar de legítimo, não é de todo compreensível.


A figura de Barahona Fernandes, nesta obra de Vitor Oliveira,  não é incluída no grupo dos próximos de Egas Moniz. Nem valoriza o facto de Barahona Fernandes ter sido o autor da primeira biografia estruturada - “Egas Moniz: pioneiro dos descobrimentos médicos” - nem o respaldo teórico que deu ao Mestre, tentando justificar as “alterações da personalidade” supervenientes desde as primeiras Tentativas Operatórias - valem a Victor Oliveira um traço de mínima constatação.


É estranho. Tanto mais que Moniz costumava reconhecer que pretendia com a leucotomia uma intervenção de caráter psiquiátrico. A cirurgia ao serviço da psiquiatria, dizia ele, e atrás dele seguiram muitos psiquiatras. Outros opuseram-se, fundamentadamente, desde o início. Na minha modesta opinião, a história não deve lembrar uns e esquecer outros.


A história tem que encontrar lugar para todos.


Se não, deixa de ser história.

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (4)

 



Finalmente, atente-se em dois erros mais graves - que poderão ser eventualmente gralhas que os revisores terão deixado passar, de fácil emenda na próxima edição - e numa omissão que não sei ainda como classificar.




Vamos aos erros:




Neste livro, ao designar os nomeadores de Egas Moniz para a sua 5ª nomeação, surgem “Sousa Campos, Louchi, Buschi, neuropsiquiatras brasileiros que etc” (p. 106), quando, de facto, em investigações anteriormente publicadas há mais de uma década (e que são de acesso aberto) estipulam, em tradução do sueco para português, que tais nomeações vieram de Copenhaga, — E.M. Busch; de Lisboa, — Celestino da Costa, Barahona Fernandes, Castro Freire, J. M. Loureiro, Pereira Flores; e de São Paulo, — Souza Campos, R. Locchi, e Jaime Periera.

São gralhas, com certeza. Mas sem qualquer errata, o leitor incauto fica sem saber que, aos brasileiros e portugueses, se tinha juntado também um dinamarquês. Por outro lado, ao que se sabe até hoje, nenhum dos nomeadores brasileiros participou no 1º Congresso de Psicocirurgia de 1948, em Lisboa.




Para a 4ª nomeação do Nobel, o autor indica (p. 105) que a avaliação do Comité Nobel “se perdeu na 2ª Guerra Mundial”. Não é verdade. A carta de nomeação assinada por Walter Freeman, o relatório de Hessen Möller e o resto do processo de 1944 estão também disponíveis. Foram traduzidos do sueco para português, e podem ser consultados por quem estiver interessado em aprofundar as coloridíssimas contradições que levaram o Comité Nobel a desvalorizar sucessiva e paradoxalmente, a Angiografia Cerebral, recusando-lhe o prémio desde 1928.

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (3)

 




Porém, as biografias de caráter celebratório são assim. Levam tudo por diante, dando muito pouca importância aos detalhes.

Não apenas o trajeto político de Moniz é vítima dessa simplificação. Também no plano empresarial e profissional, Victor Oliveira optou por terraplanar o percurso, omitindo o Moniz acionista, dirigente e médico da Companhia de Seguros A Nacional, consultor para o ramo dos Seguros de Vida. É verdade que pode ter pouco interesse. Sublinho-o apenas porque, noutras perspetivas, este conjunto de informações permite escrutinar de outro ângulo o sábio nobelizado, revelando algo mais do que um cientista desinteressado, que faz publicidade a produtos farmacêuticos que também prescreve; que faz um negócio milionário com a venda do seu palacete de Lisboa ao Vaticano, entidade com a qual, anos antes, restabeleceu relações diplomáticas, após o corte abrupto ocorrido quando da revolução Republicana. Puro anacronismo, dirão alguns. Naquele tempo não se ligava tanto a essas coisas, e não devemos julgar o passado com os critérios do presente.

Todavia, aqueles que fazem qualquer tipo de história sabem muito bem que não há nada mais imprevisto do que o passado.

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (2)

 



A publicação de “Egas Moniz - legados da sua vida e obra”, de Victor Oliveira, inscreve-se na fileira celebratória de uma extensa bibliografia acerca do controverso político e neurologista cuja competência comunicacional foi de molde a conseguir que, ainda hoje, pela pena de alguns dos seus biógrafos, a descrição do seu trajeto continue a sintonizar-se pelo diapasão que fabricou. Como dizia no início deste ano um dos frequentadores deste blogue, raramente se destaca o facto de Egas Moniz ter sido médico da CP, porque tal condição o colocaria demasiado perto dos ferroviários e dificultaria mais a mitificação?

O tom geral é dado no prefácio à obra, assinado pelo diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Fausto J. Pinto, em cuja opinião, o biografado “conseguiu ser tudo aquilo que muitos buscam, mas poucos conseguem” (p. 9).

A sua carreira política será, mais uma vez despojada da vivacidade táctica que o fez aliar-se aos Republicanos ainda no tempo da “dissidência progressista”, a aceitar a liderança de Miguel Bombarda, a voltar a conjurar com os Monárquicos, a ser cofundador do Partido Evolucionista (com António José de Almeida) e a permanecer no Governo de José Relvas, e a perceber finalmente, que a onda sidonista tinha passado. Egas Moniz, retira-se da política menos por quaisquer ressentimentos, mas, sobretudo, porque o seu espaço de manobra se reduzira drasticamente. E, sagaz como era, ao concluir que tinha perdido influência, soube virar de página.

É verdade que estas considerações são de pouco interesse perante uma obra bem planeada e estruturada, com uma excelência gráfica notável, fazendo juz ao propósito enunciado pelo autor: fazer dela uma "memorabilia  de uma vida marcante” (p. 14).

O sistema presidencialista do Sidónio Pais, à imagem do Governo Federal dos Estados Unidos da América, não tinha a figura do “ministro”, tinha, sim, “Secretários de Estado”. O autor referirá sempre Moniz como “Ministro dos Negócios Estrangeiros”. Dir-se-ia que uma nota de rodapé resolveria a questão, evitando que um pouco de história e cultura política da época se escoassem pelo ralo da simplificação.


terça-feira, junho 07, 2022

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (1)

 



OLIVEIRA, Victor, Egas Moniz. Legado da sua vida e obra, Lisboa, By The Book, 2019.


Género celebratório, reverencial, devolvendo ao biografado muito dos seus tópicos favoritos, indicados na literatura corrente, desde o título à última linha; postura parcialmente inspirada na biografia de João Lobo Antunes (Egas Moniz: uma biografia) - o biografado terá conseguido praticamente tudo o que quis, etc. De resto, excelente apresentação, encadernação, grafismo, couché de luxo, bem escrito e, de acordo com o género, bem organizado. O cientista nobelizado, o político, e outras facetas, num descritivismo com algumas lacunas (certamente voluntárias), designadamente quanto a elementos de contextualização, indispensáveis para compreender o percurso e o tipo de relações que o biografado foi estabelecendo. A elas me referirei em próximos posts, em jeito de recensão.



sexta-feira, janeiro 21, 2022

Cruzamento de biografias (1)

 






Na visita guiada conduzida por José Luis Garcia, ontem (20/01/2022) à exposição sobre a vida e obra de Mário Domingues, Anarquista, cronista e escritor da condição negra, na Biblioteca Nacional, pode ver-se, num dos expositores uma carta que Egas Moniz endereçou a Mário Domingues.



O significado deste cruzamento é de curto alcance, mas não deixa de constituir um apontamento sobre os pontos de intersecção das biografias.




sexta-feira, janeiro 07, 2022

Egas Moniz ao Panteão Nacional (9) Aristides de Sousa Mendes (1885-1954)

 



“Entra, hoje, no Panteão Nacional, Aristides de Sousa Mendes.” (Do discurso do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 19 de outubro de 2021, na cerimónia oficial).

No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa comete um deslize, ao afirmar que a plêiade contraditória de ex-presidentes da República que designa foram todos consagrados antes da revolução do 25 de abril de 74. Não. Manuel de Arriaga só se viu no Panteão em 16 de setembro de 2004, 30 anos após o derrubamento do Estado Novo.

No seu breve discurso, Marcelo Rebelo de Sousa simplifica o imbróglio em que o Panteão se tornou, atribuindo-lhe um critério genérico: os homenageados apresentariam

“Dois traços comuns: mudaram a História de Portugal e projetaram Portugal no universo. Todos eles. Disso mesmo tendo, ou não, o exato entendimento.

Na política, na música, na escrita, no desporto, na diplomacia ao serviço da vida e da liberdade.

E assim continuamos em matéria de Panteão, a tentar justificar o império da contradição e a achar “natural” que nenhuma mulher ou homem de ciência tenha até agora ombreado com os que ali foram deitados para dormir “até ao fim dos tempos. Se os tempos tiverem fim”.



terça-feira, dezembro 28, 2021

Contos da lobotomia

 


Do outro lado da glória científica da psicocirurgia está a tragédia das pessoas leucotomizadas, e lobotomizadas. São conhecidas muitas biografias e enaltecidas as “tentativas operatórias” de uns, mas o enquadramento histórico fica incompleto e desequilibrado sem indagar e revelar os resultados nas suas múltiplas dimensões.

Registar ou enaltecer os grandes empreendimentos deixando o holofote a iluminar os “grandes homens” e as “elites” foi uma constante do modo de fazer história que atravessou diferentes historiografias até aos dias de hoje. Fazer-lhes o contraponto, alargar o enfoque aos restantes atores históricos não é novidade. Apenas continua a ser raro.

Aqui no blogue do lado, Contos da Lobotomia, inaugura-se a publicação de algumas histórias que ajudam a completar as aventuras da psicocirurgia.