domingo, março 19, 2023

Uma especial saudação deste blog para Bruno Claro





Bruno Claro, Investigador em artes visuais e fotógrafo,
cuja Tese de Mestrado em Estética e Estudos Artísticos foi
aprovada  na Universidade Nova de Lisboa no
passado dia 16 de fevereiro.

O título: “Tentativas operatórias no tratamento de certas
psicoses” corresponde exatamente ao que Egas Moniz
atribuiu ao livro publicado em Paris, pela editora
Masson, em 1935, onde divulga os resultados de
vinte leucotomias que selecionou.

A sequência imagética que Bruno Claro apresenta,
evidencia um entendimento emendado de toda a
problemática que envolve a psicocirurgia.
A novo tema gráfico do blog foi extraído deste seu
trabalho, em sua homenagem.

Quem quiser consultar este seu trabalho na íntegra,

poderá fazê-lo AQUI.

quarta-feira, junho 15, 2022

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (5)

 












Finalmente, Victor Oliveira fez algo que, apesar de legítimo, não é de todo compreensível.


A figura de Barahona Fernandes, nesta obra de Vitor Oliveira,  não é incluída no grupo dos próximos de Egas Moniz. Nem valoriza o facto de Barahona Fernandes ter sido o autor da primeira biografia estruturada - “Egas Moniz: pioneiro dos descobrimentos médicos” - nem o respaldo teórico que deu ao Mestre, tentando justificar as “alterações da personalidade” supervenientes desde as primeiras Tentativas Operatórias - valem a Victor Oliveira um traço de mínima constatação.


É estranho. Tanto mais que Moniz costumava reconhecer que pretendia com a leucotomia uma intervenção de caráter psiquiátrico. A cirurgia ao serviço da psiquiatria, dizia ele, e atrás dele seguiram muitos psiquiatras. Outros opuseram-se, fundamentadamente, desde o início. Na minha modesta opinião, a história não deve lembrar uns e esquecer outros.


A história tem que encontrar lugar para todos.


Se não, deixa de ser história.

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (4)





Finalmente, atente-se em dois erros mais graves - que poderão ser eventualmente gralhas que os revisores terão deixado passar, de fácil emenda na próxima edição - e numa omissão que não sei ainda como classificar.

Vamos aos erros:

Neste livro, ao designar os nomeadores de Egas Moniz para a sua 5ª nomeação, surgem “Sousa Campos, Louchi, Buschi, neuropsiquiatras brasileiros que etc” (p. 106), quando, de facto, em investigações anteriormente publicadas há mais de uma década (e que são de acesso aberto) estipulam, em tradução do sueco para português, que tais nomeações vieram de Copenhaga, — E.M. Busch; de Lisboa, — Celestino da Costa, Barahona Fernandes, Castro Freire, J. M. Loureiro, Pereira Flores; e de São Paulo, — Souza Campos, R. Locchi, e Jaime Periera.

São gralhas, com certeza. Mas sem qualquer errata, o leitor incauto fica sem saber que, aos brasileiros e portugueses, se tinha juntado também um dinamarquês. Por outro lado, ao que se sabe até hoje, nenhum dos nomeadores brasileiros participou no 1º Congresso de Psicocirurgia de 1948, em Lisboa.


Para a 4ª nomeação do Nobel, o autor indica (p. 105) que a avaliação do Comité Nobel “se perdeu na 2ª Guerra Mundial”. Não é verdade. A carta de nomeação assinada por Walter Freeman, o relatório de Hessen Möller e o resto do processo de 1944 estão também disponíveis. Foram traduzidos do sueco para português, e podem ser consultados por quem estiver interessado em aprofundar as coloridíssimas contradições que levaram o Comité Nobel a desvalorizar sucessiva e paradoxalmente, a Angiografia Cerebral, recusando-lhe o prémio desde 1928.


Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (3)

 














Porém, as biografias de caráter celebratório são assim. Levam tudo por diante, dando muito pouca importância aos detalhes.

Não apenas o trajeto político de Moniz é vítima dessa simplificação. Também no plano empresarial e profissional, Victor Oliveira optou por terraplanar o percurso, omitindo o Moniz acionista, dirigente e médico da Companhia de Seguros A Nacional, consultor para o ramo dos Seguros de Vida. É verdade que pode ter pouco interesse. Sublinho-o apenas porque, noutras perspetivas, este conjunto de informações permite escrutinar de outro ângulo o sábio nobelizado, revelando algo mais do que um cientista desinteressado, que faz publicidade a produtos farmacêuticos que também prescreve; que faz um negócio milionário com a venda do seu palacete de Lisboa ao Vaticano, entidade com a qual, anos antes, restabeleceu relações diplomáticas, após o corte abrupto ocorrido quando da revolução Republicana. Puro anacronismo, dirão alguns. Naquele tempo não se ligava tanto a essas coisas, e não devemos julgar o passado com os critérios do presente.

Todavia, aqueles que fazem qualquer tipo de história sabem muito bem que não há nada mais imprevisto do que o passado.

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (2)

 









A publicação de “Egas Moniz - legados da sua vida e obra”, de Victor Oliveira, inscreve-se na fileira celebrativa de uma extensa bibliografia acerca do controverso político e neurologista cuja competência comunicacional foi de molde a conseguir que, ainda hoje, pela pena de alguns dos seus biógrafos, a descrição do seu trajeto continue a sintonizar-se pelo diapasão que fabricou. Como dizia no início deste ano um dos frequentadores deste blogue, raramente se destaca o facto de Egas Moniz ter sido médico da CP, porque tal condição o colocaria demasiado perto dos ferroviários e dificultaria mais a mitificação?

O tom geral é dado no prefácio à obra, assinado pelo diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Fausto J. Pinto, em cuja opinião, o biografado “conseguiu ser tudo aquilo que muitos buscam, mas poucos conseguem” (p. 9).

A sua carreira política será, mais uma vez despojada da vivacidade táctica que o fez aliar-se aos Republicanos ainda no tempo da “dissidência progressista”, a aceitar a liderança de Miguel Bombarda, a voltar a conjurar com os Monárquicos, a ser cofundador do Partido Evolucionista (com António José de Almeida) e a permanecer no Governo de José Relvas, e a perceber finalmente, que a onda sidonista tinha passado. Egas Moniz, retira-se da política menos por quaisquer ressentimentos, mas, sobretudo, porque o seu espaço de manobra se reduzira drasticamente. E, sagaz como era, ao concluir que tinha perdido influência, soube virar de página.

É verdade que estas considerações são de pouco interesse perante uma obra bem planeada e estruturada, com uma excelência gráfica notável, fazendo juz ao propósito enunciado pelo autor: fazer dela uma "memorabilia  de uma vida marcante” (p. 14).

O sistema presidencialista do Sidónio Pais, à imagem do Governo Federal dos Estados Unidos da América, não tinha a figura do “ministro”, tinha, sim, “Secretários de Estado”. O autor referirá sempre Moniz como “Ministro dos Negócios Estrangeiros”. Dir-se-ia que uma nota de rodapé resolveria a questão, evitando que um pouco de história e cultura política da época se escoassem pelo ralo da simplificação.


terça-feira, junho 07, 2022

Biografia de Egas Moniz da autoria de Victor Oliveira (1)

 



OLIVEIRA, Victor, Egas Moniz. Legado da sua vida e obra, Lisboa, By The Book, 2019.


Género celebratório, reverencial, devolvendo ao biografado muito dos seus tópicos favoritos, indicados na literatura corrente, desde o título à última linha; postura parcialmente inspirada na biografia de João Lobo Antunes (Egas Moniz: uma biografia) - o biografado terá conseguido praticamente tudo o que quis, etc. De resto, excelente apresentação, encadernação, grafismo, couché de luxo, bem escrito e, de acordo com o género, bem organizado. O cientista nobelizado, o político, e outras facetas, num descritivismo com algumas lacunas (certamente voluntárias), designadamente quanto a elementos de contextualização, indispensáveis para compreender o percurso e o tipo de relações que o biografado foi estabelecendo. A elas me referirei em próximos posts, em jeito de recensão.



sexta-feira, janeiro 21, 2022

Cruzamento de biografias (1)

 






Na visita guiada conduzida por José Luis Garcia, ontem (20/01/2022) à exposição sobre a vida e obra de Mário Domingues, Anarquista, cronista e escritor da condição negra, na Biblioteca Nacional, pode ver-se, num dos expositores uma carta que Egas Moniz endereçou a Mário Domingues.



O significado deste cruzamento é de curto alcance, mas não deixa de constituir um apontamento sobre os pontos de intersecção das biografias.




sexta-feira, janeiro 07, 2022

Egas Moniz ao Panteão Nacional (9) Aristides de Sousa Mendes (1885-1954)

 



“Entra, hoje, no Panteão Nacional, Aristides de Sousa Mendes.” (Do discurso do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 19 de outubro de 2021, na cerimónia oficial).

No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa comete um deslize, ao afirmar que a plêiade contraditória de ex-presidentes da República que designa foram todos consagrados antes da revolução do 25 de abril de 74. Não. Manuel de Arriaga só se viu no Panteão em 16 de setembro de 2004, 30 anos após o derrubamento do Estado Novo.

No seu breve discurso, Marcelo Rebelo de Sousa simplifica o imbróglio em que o Panteão se tornou, atribuindo-lhe um critério genérico: os homenageados apresentariam

“Dois traços comuns: mudaram a História de Portugal e projetaram Portugal no universo. Todos eles. Disso mesmo tendo, ou não, o exato entendimento.

Na política, na música, na escrita, no desporto, na diplomacia ao serviço da vida e da liberdade.

E assim continuamos em matéria de Panteão, a tentar justificar o império da contradição e a achar “natural” que nenhuma mulher ou homem de ciência tenha até agora ombreado com os que ali foram deitados para dormir “até ao fim dos tempos. Se os tempos tiverem fim”.



terça-feira, dezembro 28, 2021

Contos da lobotomia

 


Do outro lado da glória científica da psicocirurgia está a tragédia das pessoas leucotomizadas, e lobotomizadas. São conhecidas muitas biografias e enaltecidas as “tentativas operatórias” de uns, mas o enquadramento histórico fica incompleto e desequilibrado sem indagar e revelar os resultados nas suas múltiplas dimensões.

Registar ou enaltecer os grandes empreendimentos deixando o holofote a iluminar os “grandes homens” e as “elites” foi uma constante do modo de fazer história que atravessou diferentes historiografias até aos dias de hoje. Fazer-lhes o contraponto, alargar o enfoque aos restantes atores históricos não é novidade. Apenas continua a ser raro.

Aqui no blogue do lado, Contos da Lobotomia, inaugura-se a publicação de algumas histórias que ajudam a completar as aventuras da psicocirurgia.

sábado, maio 22, 2021

1949 - Um Nobel complexo: Egas Moniz

 


Para quem tiver interesse, aqui está o link para um artigo de revisão sobre as biografias de Egas Moniz, publicado no último número da revista CEPIHS.

1949 – Um Nobel complexo: Egas Moniz

sábado, janeiro 02, 2021

 


Egas Moniz ao Panteão Nacional (8)





Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014) foi o primeiro futebolista profissional a ascender ao Panteão Nacional. A rapidez com que o processo se verificou foi notável. Faleceu em 5 de janeiro de 2014. A 3 de julho do ano seguinte oficializava-se a trasladação do cemitério do Lumiar para o Panteão Nacional. A importância do futebol na política ficou assim confirmada. Neste mesmo blog fizemos-lhe uma referência na altura, chamando-lhe, com um toque de humor,  Eusébio - A última finta o que com certeza pecou por defeito. Porquê a última?

Em todos os casos anteriores o 1º Nobel português (e, a partir de 2010, também o 2º)  poderiam ali ter-se perfilado, já que reuniam todos os quesitos para lhe serem concedidas honras de Panteão. E todavia, não. Houve sempre outros valores, outras estratégias, outros dispositivos que operaram diligentemente para que o manto do esquecimento permanecesse sobre pessoas, grupos, entidades e acontecimentos, virando os holofotes da lembrança, da recordação, da comemoração e da homenagem noutras direções.

Não. Ainda não foi dessa vez que o 1º e o 2º portugueses nobelizados foram sequer aludidos.


 



Egas Moniz ao Panteão Nacional (7)








A Sophia de Mello Breyner Andresen (1819-2004), exemplo de uma conjugação pronunciada entre a criação literária e artística e o ativismo cívico e político, autora de obra apreciável, são concedidas honras de Panteão Nacional dez anos após a sua morte, e 7 anos depois de Aquilino. Em 2014, passa a ombrear com a elite dos heróis pátrios.

Do modo como as coisas se processaram nada faria os proponentes deterem-se e olhar para as figuras que ficaram para trás. Era o tempo de fazer justiça à poetisa incontornável; era o tempo dela. Não era, de todo, o tempo dele.

 


Egas Moniz ao Panteão Nacional (6)










Aquilino Ribeiro (1885-1963) ativista político, autor do Volfrâmio, Quando os lobos uivam, O Malhadinhas e muitíssimos mais, foi o senhor que se seguiu. Em 2007, cerca de 4 anos depois de Manuel de Arriaga, dá entrada no Panteão Nacional, entre aplausos e apupos, com manifestações de apoio e declarações de desagrado e oposição à concessão dessa honra.

Também neste caso, o 1º Nobel português poderia tê-lo acompanhado. Conheciam-se e liam-se mutuamente. Ofereceram um ao outro muitos dos livros que publicaram. Viveram a mesma época e enfrentaram problemas semelhantes.

A celeuma que rodeou a proposta de concessão de honras a Aquilino Ribeiro é particularmente interessante e põe a nu o caráter contraditório do julgamento das biografias e de outros elementos historiográficos, sempre em aberto.

De qualquer modo, não foi ainda desta vez que Egas Moniz foi proposto.

 


Egas Moniz ao Panteão Nacional (5)




Só em 2004, Manuel de Arriaga (1840-1917), primeiro Presidente da República Portuguesa, vai para o Panteão Nacional. Nestes debates sobre o Panteão é surpreendente que o primeiro Presidente da 1ª República, que criou e aderiu à conceptualização dos Panteões republicanos, tenha sido acolhido naquele espaço evocativo tão tarde. Esta demora ajuda a compreender o caráter casuístico, desgarrado e ziguezagueante dos critérios usados na concessão de honras...

Na altura não teria sido necessário escolher entre Manuel de Arriaga e Egas Moniz. Ambos poderiam ter subido de braço dado às esferas virtuais do Panteão.

Como se sabe, ainda não foi desta vez que Egas Moniz foi considerado. Afinal tratava-se apenas do primeiro prémio Nobel descerrado a um português...



sexta-feira, janeiro 01, 2021

 


Egas Moniz ao Panteão Nacional (4)




Amália Rodrigues (1920-1999) foi a próxima figura. O ano da concessão das honras a Amália foi 2001. Rápido, portanto. A onda emocional varreu tudo. Ai de quem se opusesse! Mas quem é que não ia gostar do fado e da Amália. Não se tratou propriamente de parar, pensar um pouco nas personalidades ou conjuntos de figuras importantes na história de todas as coisas. Não. A Amália morreu e tinha de ir para o Panteão. E foi.

Muito provavelmente nesses dias de acesas e esquinadas discussões não acudiu à mente de ninguém que havia entre os portugueses um neurologista, escritor, e cientista nobelizado. A onda era outra...


 

Egas Moniz ao Panteão Nacional (3)


E eis que com a revolução do 25 de abril de 1974 tudo parece ter mudado. Quer dizer: o Panteão Nacional continua a amparar o sono eterno das figuras que o Estado Novo lá instalou - uma espécie de hino monumental ao nacionalismo expansionista sob o pálio daqueles seis (Camões, Cabral, Gama, Henrique, Albuquerque e Nun'Álvares) - mas, desde o derrubamento do regime fascista à mercê de novos gestos do poder político democrático.

São então concedidas honras de Panteão a Humberto Delgado (1906-1965) interrompendo, em parte, o sentido com que o Panteão Nacional fora aconchegado em 1966. Um dos homens que enfrentou o regime de Salazar em eleições presidenciais, assassinado pela polícia política do regime deposto (PIDE/DGS), impunha-se na concessão de honras em 1990.

Estavam feitas as contas do século XX.

Poderia ter ocorrido a alguém que Egas Moniz (1874-1955) primeiro prémio Nobel português da Fisiologia ou Medicina seria uma hipótese forte para a concessão dessas honras? Poderia... mas não aconteceu.

Sabemos que esta tradição de, por um lado, engrandecer e mitificar as biografias dos antepassados, omitindo, por outro lado, todas as vozes discordantes é de um simplismo atroz. A memória dos que foram vencidos e humilhados deve ser também do conhecimento das gerações vindouras. A nossa tradição do culto dos valores pátrios requer revisão crítica e muita atenção às armadilhas impostas pelo pensamento único e pelo chauvinismo.

Mas o Panteão Nacional continuava ali. Humberto Delgado entrou, e muito bem. Moniz ainda não.





 

Egas Moniz ao Panteão Nacional (2)



Em 1966, por ocasião do 40º aniversário do golpe militar de 28 de maio de 1926, o regime de Salazar decidiu montar uma parada vistosa para contrariar o isolamento internacional. A guerra colonial arrastava-se desde 1961, sem esperança nem fim à vista. A contestação do regime do Estado Novo acentuava-se. Então, a inauguração do Panteão Nacional (que punha fim às obras de Santa Engrácia), da Ponte sobre o Tejo, entre outras iniciativas, pretendiam oferecer uma imagem política plena de iniciativa.

Quem vai o Estado Novo selecionar para figurar no Panteão Nacional?

Sob a direção do historiador Damião Peres (1889-1976), a comissão constituída propôs algumas figuras mitificadas quer pelos republicanos quer pelo Estado Novo com o intuito de nelas enraizar a ideologia nacionalista e expansionista:

Luís de Camões (1525-1580), Pedro Álvares Cabral (1468-1526), Infante Dom Henrique (1394-1460),Vasco da Gama (1469-1524), Afonso de Albuquerque (1453-1515), Nuno Álvares Pereira (1360-1431).

E junta-lhe os "seus" mortos

Sidónio Pais (1872-1918), Óscar Carmona (1869-1951),

 e acrescenta alguns que tinham já sido objeto de determinações da 1ª República

Teófilo Braga (1843-1924), Almeida Garrett (1779-1854), Guerra Junqueiro (1850-1953), João de Deus (1830-1896).

Alexandre Herculano (1810-1877), Manuel de Arriaga (1840-1917), entre outros, foram preteridos.

O propósito político-ideológico de autopromoção parece evidente. O historiador Damião Peres e os restantes membros da comissão que elaborou a proposta sabiam perfeitamente da existência do primeiro Nobel português. Simplesmente os seus tempos, ideais, considerações acerca da cultura e das ciências eram muito diferentes dos que nós suspeitamos prevalecerem nos dias de hoje.

Portanto, poder-se-ia dizer que na primeira oportunidade que surgiu, Egas Moniz, que fechara os olhos cerca de 11 anos antes, político do sidonismo, homem de cultura e ciência galardoado com o prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1949, foi rejeitado ou, pelo menos, não foi considerado "elegível".

O Estado Novo meteu lá quem quis. Moniz ficou no esquecimento.


quinta-feira, dezembro 31, 2020

 Egas Moniz ao Panteão Nacional (1)


Passados todos estes anos de interrogações e reflexão acerca do alcance, significados e contextos em que Egas Moniz se moveu e foi depois movido, a iniciativa da Federação de Aveiro do Partido Socialista reabre um obrigatório debate interessante quer sobre o tratamento que a figura de Egas Moniz tem merecido, quer sobre a oportunidade e as razões invocadas para lhe conceder honras de Panteão.

A generosidade e justiça com que os militantes do Partido Socialista fazem a proposta é louvável, e também não me ocorre discutir méritos ou deméritos do perfil do sábio de Avanca.

Os apontamentos que gostaria de deixar em forma de comentário ao caso concreto de Egas Moniz, já tinha aflorado aqui anos atrás - Eusébio - A última finta - e às circunstâncias em que nós temos tratado a história, figuras, coletivos e contextos. Esperemos que desta vez prevaleça uma atitude serena, crítica, inclusiva e dialogante, evitando tanto quanto possível a cristalização de redutos emocionais.